quarta-feira, 29 de agosto de 2012

FÈDON - A imortalidade da Alma?


Platão em sua maturidade filosófica escreve o diálogo Fédon, no qual descreve os momentos finais da vida de Sócrates antes de sua execução, discutindo com seus discípulos a ligação entre corpo e alma. O livro é iniciado com o diálogo entre Fédon e Equécrate, que narra a Fédon como foram os últimos momentos da vida de Sócrates.
A função precípua deste diálogo é abordar a questão da imortalidade da alma. O grande cerne levantado nesta obra de Platão é: será que a alma é imortal?  Problema à volta do qual surgirão outros, mais ou menos pertinentes Assunto este proposto, devido ao próprio momento em que ocorre o dialogo frente a iminente morte do filosofo, e o fato dos discípulos de Sócrates tentarem a principio persuadirem-no a não tomar o veneno cicuta que ceifaria sua vida, ele então levanta inúmeros argumentos para levá-los ao entendimento de tal decisão.
O argumento Socrático se inicia, com o conceito da imortalidade da alma e o fato da mesma se desprender do corpo indo para um lugar melhor, e, por isso, os seus discípulos não deveriam privá-lo desse bem, uma vez que o filosofo deve aspirar pela morte, já que a alma vai de encontro a um “mundo” verdadeiramente puro, de encontro com as ideias e com o verdadeiro conhecimento, a eternidade, a perfeição e a harmonia, sendo assim, é ela, a morte, a melhor sorte que o filosofo deve esperar, uma vez que a partir dela será conduzido ao conhecimento do belo e das essências.
Para Sócrates, "A  Filosofia é o exercício de morrer e estar morto”, ou seja, a alma abstraindo-se o máximo do corpo, que é visto como um cárcere que priva-nos do verdadeiro conhecimento. A esperança socrática baseia-se no fato de ser o Hades um local justo, de repouso dos que conseguiram a purificação da alma, lá habitam os que praticaram boas ações e lá se comungará com os sábios e os deuses. Este argumento teve como contexto em responder as objeções de Cebes quanto à insensatez de estar-se feliz com a morte quebrando as nossas ligações com os deuses.
O filosofo então, discorre sobre a preexistência da alma em relação ao corpo, ficando impoluta após o mesmo se extinguir. Para defesa de seu argumento, Sócrates, lança mão do fato de todas as coisas nascerem do seu contrário, sendo assim os vivos nascem dos mortos, e necessariamente, os mortos dos vivos, também o fato do processo de devir terem dois sentidos, demonstrando, portanto a sobrevivência inquestionável da alma, levando a conclusiva que há um ciclo de nascimento, morte e renascimento, para isso fazendo-se necessário que a alma habite no alem, de onde regressará quantas vezes forem preciso para reencarnar, ate alcançar a purificação. Portanto as almas são a causa do devir; a essência precedendo a existência.
Outro de seus argumentos para provar a imortalidade da alma, é gnosiológico, quando para o filosofo “aprender é recordar”. Tendo a alma já convivido com o mundo das ideias, e lá contemplado as formas perfeitas e eternas existentes no mesmo, ao retornar em um corpo e habita-lo, teriam estas memórias apagadas, esquecendo-se das ideias perfeitas, embora a alma ainda almeje voltar para o mundo das ideias, sendo assim o conhecimento está interligado as lembranças e tem  então de captar no mundo sensível, as sombras das formas do mundo das ideias.
Dependendo do ciclo vivido pela alma, estas ao encarnarem recordam mais do que outras daquilo que contemplou no mundo inteligível, surgindo daí no diálogo a explanação do mito do rio do esquecimento, onde as almas ao passarem bebem muita ou pouca água segundo a sequiosidade de cada uma, determinando, portanto o grau de lembranças, que são reminiscências de tudo aquilo já vivido, e que está guardado no seu interior em estado latente, esperando para ser acessado novamente.
Assim, Fédon ao voltar seu olhar a essência do homem, numa teoria de eternidade e de importância da consciência e das ações virtuosas, nos mostra Sócrates aceitando a morte de maneira serena, tranquila e consciente; almejando libertar a alma do corpo, não temendo a morte, pois afinal, a alma do filósofo sabe, então, que "enquanto viver deve guiada pelo raciocínio e cingindo-se sempre a ele, acalmar as paixões e não afastar os olhos do que é verdadeiro, divino e superior à opinião, e que, depois da morte, há-de ir para o que tem afinidade e que lhe é semelhante, livre já dos males que atormentam o homem.

Joíra Freitas