QUEM AMA A CRISTO DIZ SIM A VIDA?
(A Igreja e o Referendo de outubro de 2005)
*Joíra Freitas
Falar sobre a participação cidadã da Igreja no
mundo contemporâneo ainda é um tarefa árdua, primeiro por ser tal assunto
imbuído de questões éticas e segundo, por ser algo novo no contexto
Igreja-sociedade. Devemos então antes de analisar quaisquer questões de ética
social, (ethos como forma de habitar), é preciso entender o que é cidadania e
analisar numa perspectiva bíblica qual a função ou papel do cristão diante da
polis.
Ser cidadão (e ter cidadania) é participar dos
interesses de seu país, de seu estado e de sua cidade. Exercer essa cidadania é
ser uma pessoa de ações e pensamentos críticos e ativos, ou seja, a cidadania é
o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem
intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo
direto ou indireto na formação do governo e na sua administração.
Ao criar o ser humano, Deus na sua infinita
misericórdia, sabedoria e bondade, fê-los habitar em sociedade, vivendo num
contexto social, onde a justiça e a misericórdia pudessem ser praticadas, “Assim na terra, como no céu”. Vivendo
nesse mundo onde convivemos com outros entes, faz-se necessário que
participemos dele com comprometimentos éticos e morais, afinal de contas em Mateus
5:14, é dito que "vós sois a luz do
mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte"
(Almeida Edição Contemporânea).
Ao examinarmos cidadania no contexto Igreja
contemporânea, nascem algumas questões inquietantes, mas fundamentais para
esboçarmos o perfil da Igreja cristã nos desafios do mundo atual. Entre estas
questões encontram-se tais como: se a igreja realmente participa ativamente da
vida pública, se as questões sociais são discutidas com consciência critica
dentro dos muros da igreja, se os líderes estão verdadeiramente preparados para
inserir seu povo no contexto de participação cidadã, se a igreja não confunde o
medo de participar da vida da polis com o mandamento de “não amarmos o mundo e
o que nele há”.
Para
analisarmos melhor a questão aqui proposta, examinemos, embora de forma breve,
a igreja e sua postura diante do referendo do dia 23 de outubro 2005, onde o
povo brasileiro foi consultado sobre a proibição do comércio de armas de fogo e
munições no país, propondo a alteração do art. 35 do Estatuto do Desarmamento
(Lei n° 10.826/2003) que tornava proibida a comercialização de arma de fogo e
munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no
art. 6° do Estatuto. Como isso causaria impacto sobre a sociedade brasileira, o
povo deveria concordar ou não com ele. Os brasileiros
rejeitaram a alteração na lei.
Para Maria Aparecida Rezende Mota, doutora em
História social, em seu artigo “O referendo de outubro/2005: das conquistas
plurais à derrota singular”:
“a campanha
mobilizou igrejas, organizações da sociedade civil, polícias militares dos
estados e a polícia federal, entre outras instituições, Segundo dados do
Ministério da Justiça, ela resultou na entrega e destruição de 443.719 armas de
fogo. (...)O pastor Ariovaldo Ramos foi outro depoente que considerou a
experiência muito rica, especialmente para as igrejas evangélicas que sempre
foram, segundo ele, um tanto ausentes, “nunca se envolviam em grandes
campanhas, em questões de natureza política, achavam que a igreja tinha que se
manter alheia a essa situação toda”. O fato de muitas igrejas terem participado
ativamente, para ele, foi um grande passo, “uma tomada de posição, uma tomada
de consciência””.
Ao lermos o
artigo da doutora e as conquistas das ações de algumas igrejas frente ao
plebiscito de 2005, ficamos animados ao percebermos que o povo cristão exerceu
sua cidadania e disse sim a vida, mas logo a animação passa ao analisarmos
melhor em que contexto tudo isso se deu e quão pouco foram às igrejas de fato
envolvidas neste processo, e o que é ainda mais preocupante, percebemos o
quanto a igreja está longe de mobilizar seus adeptos para exercer uma cidadania
consciente.
Seria por demais
simplista, comemorar a vitoria da “vida”, no Referendo como uma participação
ativa da igreja em torno da questão, é óbvio que não podemos negar o quanto foi
um passo de progresso, os cristãos, pelos menos alguns, terem se envolvidos em
questões sociais, mas também não podemos ignorar alguns fatos que deveríamos
rever e resignificar para servir como exemplo para futuras ações cidadãs
participativas.
Pouco se viu a igreja, pelo menos no contexto
Nordeste, discutir o assunto do desarmamento com seus adeptos, com um prévio
esclarecimento de forma consciente, numa perspectiva filosófica, racional e
acima de tudo bíblica, sem dogmatismos tradicionais religiosos. Não vimos o
assunto sendo pensado, refletido, ponderado nos muros das igrejas, onde o
cristão pudesse tomar sua própria decisão de forma coerente, não apenas porque
o pastor (tido como líder espiritual e moral) disse para fazer. Na Grécia antiga dos grandes filósofos, eram
considerados cidadãos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os
rumos da sociedade, não longe disso na Bíblia já diz em
Oseias 4:6 (NIV): “Meu povo é destruído
por falta de conhecimento”.
A Igreja de uma
maneira geral, tem aberto os olhos para as questões sociais e políticas como
uma realidade para a instauração do Reino dos céus, que segundo o Senhor Jesus
já era chegado, muito já se conquistou nesse sentido, mas falta antes de
sairmos exercendo cidadania como um povo que tem respostas para as mazelas do
mundo, fazê-lo de forma responsável e madura, discutindo o assunto com os
cristãos, que alem de membros da mesma, são cidadãos, afinal “Um homem sábio tem grande poder, e um homem de conhecimento aumenta a
força. Para travar guerra você precisa de guia, e para vitória de muitos
conselheiros”, (Prov. 24:5-6).





