segunda-feira, 28 de maio de 2012

QUEM AMA A CRISTO DIZ SIM A VIDA?



QUEM AMA A CRISTO DIZ SIM A VIDA?

(A Igreja e o Referendo de outubro de 2005)

                                                                                            *Joíra Freitas

            Falar sobre a participação cidadã da Igreja no mundo contemporâneo ainda é um tarefa árdua, primeiro por ser tal assunto imbuído de questões éticas e segundo, por ser algo novo no contexto Igreja-sociedade. Devemos então antes de analisar quaisquer questões de ética social, (ethos como forma de habitar), é preciso entender o que é cidadania e analisar numa perspectiva bíblica qual a função ou papel do cristão diante da polis.
            Ser cidadão (e ter cidadania) é participar dos interesses de seu país, de seu estado e de sua cidade. Exercer essa cidadania é ser uma pessoa de ações e pensamentos críticos e ativos, ou seja, a cidadania é o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração.
Ao criar o ser humano, Deus na sua infinita misericórdia, sabedoria e bondade, fê-los habitar em sociedade, vivendo num contexto social, onde a justiça e a misericórdia pudessem ser praticadas, “Assim na terra, como no céu”. Vivendo nesse mundo onde convivemos com outros entes, faz-se necessário que participemos dele com comprometimentos éticos e morais, afinal de contas em Mateus 5:14, é dito que "vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte" (Almeida Edição Contemporânea).
Ao examinarmos cidadania no contexto Igreja contemporânea, nascem algumas questões inquietantes, mas fundamentais para esboçarmos o perfil da Igreja cristã nos desafios do mundo atual. Entre estas questões encontram-se tais como: se a igreja realmente participa ativamente da vida pública, se as questões sociais são discutidas com consciência critica dentro dos muros da igreja, se os líderes estão verdadeiramente preparados para inserir seu povo no contexto de participação cidadã, se a igreja não confunde o medo de participar da vida da polis com o mandamento de “não amarmos o mundo e o que nele há”.
            Para analisarmos melhor a questão aqui proposta, examinemos, embora de forma breve, a igreja e sua postura diante do referendo do dia 23 de outubro 2005, onde o povo brasileiro foi consultado sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munições no país, propondo a alteração do art. 35 do Estatuto do Desarmamento (Lei n° 10.826/2003) que tornava proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6° do Estatuto. Como isso causaria impacto sobre a sociedade brasileira, o povo deveria concordar ou não com ele. Os brasileiros rejeitaram a alteração na lei.
Para Maria Aparecida Rezende Mota, doutora em História social, em seu artigo “O referendo de outubro/2005: das conquistas plurais à derrota singular”:
“a campanha mobilizou igrejas, organizações da sociedade civil, polícias militares dos estados e a polícia federal, entre outras instituições, Segundo dados do Ministério da Justiça, ela resultou na entrega e destruição de 443.719 armas de fogo. (...)O pastor Ariovaldo Ramos foi outro depoente que considerou a experiência muito rica, especialmente para as igrejas evangélicas que sempre foram, segundo ele, um tanto ausentes, “nunca se envolviam em grandes campanhas, em questões de natureza política, achavam que a igreja tinha que se manter alheia a essa situação toda”. O fato de muitas igrejas terem participado ativamente, para ele, foi um grande passo, “uma tomada de posição, uma tomada de consciência””.
Ao lermos o artigo da doutora e as conquistas das ações de algumas igrejas frente ao plebiscito de 2005, ficamos animados ao percebermos que o povo cristão exerceu sua cidadania e disse sim a vida, mas logo a animação passa ao analisarmos melhor em que contexto tudo isso se deu e quão pouco foram às igrejas de fato envolvidas neste processo, e o que é ainda mais preocupante, percebemos o quanto a igreja está longe de mobilizar seus adeptos para exercer uma cidadania consciente.
Seria por demais simplista, comemorar a vitoria da “vida”, no Referendo como uma participação ativa da igreja em torno da questão, é óbvio que não podemos negar o quanto foi um passo de progresso, os cristãos, pelos menos alguns, terem se envolvidos em questões sociais, mas também não podemos ignorar alguns fatos que deveríamos rever e resignificar para servir como exemplo para futuras ações cidadãs participativas.
Pouco se viu a igreja, pelo menos no contexto Nordeste, discutir o assunto do desarmamento com seus adeptos, com um prévio esclarecimento de forma consciente, numa perspectiva filosófica, racional e acima de tudo bíblica, sem dogmatismos tradicionais religiosos. Não vimos o assunto sendo pensado, refletido, ponderado nos muros das igrejas, onde o cristão pudesse tomar sua própria decisão de forma coerente, não apenas porque o pastor (tido como líder espiritual e moral) disse para fazer. Na Grécia antiga dos grandes filósofos, eram considerados cidadãos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os rumos da sociedade, não longe disso na Bíblia já diz em Oseias 4:6 (NIV): “Meu povo é destruído por falta de conhecimento”.
A Igreja de uma maneira geral, tem aberto os olhos para as questões sociais e políticas como uma realidade para a instauração do Reino dos céus, que segundo o Senhor Jesus já era chegado, muito já se conquistou nesse sentido, mas falta antes de sairmos exercendo cidadania como um povo que tem respostas para as mazelas do mundo, fazê-lo de forma responsável e madura, discutindo o assunto com os cristãos, que alem de membros da mesma, são cidadãos, afinal “Um homem sábio tem grande poder, e um homem de conhecimento aumenta a força. Para travar guerra você precisa de guia, e para vitória de muitos conselheiros”, (Prov. 24:5-6).




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