Nunca entendi, porque
as pessoas dão cores aos seus absurdos, a sua paz, a suas guerras, as suas
mazelas. Nunca entendi porque as pessoas definem as cores entre boas e más,
como se elas tivessem vida própria, personalidade, caráter ate. Nunca entendi
essa inefável mania de descolorir ou colorir coisas, sentimentos, como se viver
se resumisse num quadro de Monet.
Somos simbólicos eu
sei, precisamos desses mitos também sei, necessitamos classificar as coisas, sistematizá-las,
também sei, só não sei por que essa intragável “superioridade corística”. O
azul é cor de menino, já dizia minha avó, menina, use cor de rosa que é a cor
das mocinhas, dizia minha mãe... e eu quase acreditei que elas tinham razao, até
me deparar com os novos tempos, seria então o verde-água cor dos homossexuais? Não
sei talvez um tio moderno, ou um avô dessa nova geração possa elucidar melhor o
fato. Diria a cor: “ser ou não ser, eis a questão”.
O preto é cor insubstituível
das trevas, enegreceram o preto, radicalizaram a bela cor da noite que é pano
de fundo para a lua dos enamorados. Quando o ambiente está carregado de “maus
fluídos”, como dizem os espiritualizados, dizem que uma névoa preta enegreceu o
local. Quando se mancha a reputação de alguém, dizem que “denegriu”, tornou-se
negro a imagem do mesmo. Ah! Que fizeram do preto, da bela cor da noite, da tez
da linda mulata filha de mamãe Kieza, da derme negra do Quilombo?! A noite é
negra, para que repousemos das forças do dia, para que no sono revigoremos da
lida, dos cansaços do sol.
A paranóia do
inconsciente coletivo continua se: estou doente, estou amarelo, saudável
corado, se estou com raiva fico verde, se tudo é calmo e limpo fica branco, se
morro tem roxo no velório, se estou me sentindo vivo ponho laranja., se uso cores
sou piruá, se não as uso sou discreta. Se uso preto sou roqueiro, se uso
estampa pagodeiro. Se sou virgem caso de branco, se não sou mais... bom, aí é
melhor que os demais sejam daltônicos....
E por falar em cores,
me exacerba os politicamente corretos contra o vermelho-pecaminoso. Vermelho a
cor do pecado, de pomba-gira, de perdição. Adoro batom vermelho, uso essa cor
desde tenra idade quando eu me banhava e meu pai dizia: “coloca um batom
menina, está com cara de doente”. Meu batom vermelho sempre incomodou quase
todas as pessoas que me cercam. Uns dizem que o vermelho é pra chamar atenção,
outros olham como se eu estivesse pronta a seduzir qualquer transeunte que
passar. Muitos dizem que é a cor de Jezabel, mas poucos, muitos poucos me perguntaram
de fato porque uso batom vermelho.
Uso batom vermelho
porque nunca tive problemas ou traumas com cores, pelo contrário, amo as cores,
as matizes, os musgos, as tintas, amo brincar de vida, de tons e de Jobins. Sou
assim, infinitamente camaleoa, deslumbrada, brilhante. Minha alma é
espalhafatosa, larga, esparramada pelos poros dos sentidos. Pecado é não amar,
é se preocupar com a cor do batom do outro enquanto as pessoas próximas morrem
por dentro por falta de um afeto, de um ombro amigo. Perdição é fingir,
dissimular o que não se é, morrer de vontades por dentro, enquanto se tem medo
do ridículo, é a pomba-gira da baixa auto-estima, da estagnação dançando nas
almas desavisadas da solidão e ilusão de vida. Perdição na verdade, é estragar
meu voto com os corruptos de Brasília.
Amo cores porque Deus é
colorido. Tudo que ele fez está pigmentado de matiz de sua alma brilhante. Cada
flor, cada estrela, cada amanhecer e anoitecer, cada cor de pele, cor de pássaros,
árvores, rios, pedras, tudo tem a assinatura das cores de suas mãos. Sim, o meu
Deus é colorido, é incontestável isso, basta olhar a tela que ele pintou
chamado mundo, e vejo que a cor do sangue do seu Filho que foi derramado por
amor a humanidade, era vermelho carmesim.
Sim, Deus é lindamente
colorido!
Joíra Freitas
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