quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A concepção de lógica de Wittgenstein no Tractatus


Segundo Wittgenstein, tanto lógica como a linguagem possuem características universais. A linguagem como tal possui também uma estrutura para assim ser designada. A universalidade prescinde de sua inefabilidade, isto é, ter presente em todos os seus momentos a sua inefabilidade semântica. Esta inefabilidade é fundamentada na crença da linguagem como algo não só preciso, como também de outros inúmeros contextos. Aí é que surge um dos pontos mais complexos da teoria da linguagem em Wittgenstein. Estas relações da linguagem como universal não são exprimíveis.
Wittgenstein também apresenta, a priori, a forma lógica como o fator de correspondência entre o mundo e a figuração, ficando clara esta apresentação na proposição 2.18: "o que cada imagem, de forma qualquer, deve sempre ter em comum com a realidade para afigurá-la em geral – correta ou falsamente – é a forma lógica, isto é, a forma da realidade"(Wittgenstein, 1968, p.37).
Segundo Russel, uma das teses fundamentais do Tractatus é aquela que versa acerca da estrutura comum existente entre a linguagem e o mundo, a forma lógica. Para realizar uma análise do conceito de mundo presente no Tractatus, devemos levar em consideração o papel central que a linguagem desempenha em sua ontologia: não se trata, no Tractatus, de construir uma linguagem (como a das ciências exatas) para descrever o mundo: antes, trata-se de analisar a linguagem e, com isso, descrever as categorias que formam o mundo.
A filosofia do Tractatus acaba por exaltar a importância que o enunciado assume diante de suas partes no pensamento do I Wittgenstein. O mundo pode ser entendido como o conjunto dos estados de coisas passíveis de serem representados por proposições verdadeiras. Deste modo, o objeto passa a ter importância apenas na medida em que faz parte de um contexto de modo que, do ponto de vista filosófico, o objeto não tem tanto interesse quanto o fato.
Até pelo uso da metáfora,Wittgenstein mostra que, não podendo conhecer a Verdade de forma direta, eis que nos resta a contemplação do simbólico, interpretação inteligível do que é incompreensível ao humano.
No Tractatus, Wittgenstein diz  que “o fim da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos” (T 4.1112). e que em vez de “proposições filosóficas”, o resultado da filosofia consiste em tornar claras as proposições. o autor de Tractatus reservava para a filosofia um papel auxiliar de esclarecimento lógico da linguagem concernente a esses domínios específicos do conhecimento humano.
Assim como a filosofia não é uma teoria, a lógica também não é uma “teoria”, mas uma “imagem especular” do mundo: a lógica é transcendental (T 6.13). O ponto de vista transcendental deve ser tal que, por meio dele, seja possível entender que o mundo é dado na linguagem. E que a lógica espelhe o mundo significa que espelho e espelhado devem ter a mesma forma lógica.

Joíra Freitas

REFERENCIAS


revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/intuitio/article/viewPDFInterstitial/3670/3296
Guia de Estudos – Universidade Metodista de São Paulo

BRANQUINHO et al (editores). Enciclopédia de Termos Lógicofilosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 2006

HINTIKKA, Jaako & Merril. Investigação sobre Wittgenstein. São Paulo: Papirus, 1994.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MEUS ALUNOS


       Meus alunos têm um jeito diferente de todos os alunos, mas se parecem exatamente com eles. Têm alma de girassol no dentro, vêem o mundo pela janela, mas o vitror da sala de aula, não os deixam ir..
       Meus alunos têm pescoço de girafa, vêem tudo que se passa na rua com a cabeça da imaginação  Eles rapidamente voam para algum lugar além de mim; basta apenas um minuto, e lá estão eles, indo embora sem ir.
      Meus alunos têm mola no corpos, se espicham de um lado para o outro feito minhoca revirando terra. Eles percebem uns aos outros e nós os proibimos, eles então viram artistas e fazem rabiscos absurdos no papel (artistas abstratos pra ninguém botar defeito). Se reclamo a atenção, logo  eles silenciam e emudecidos viram grafiteiros da parede da sala.
      Meus alunos têm a cor-do-arco-iris, embora e mesmo que a camisa azul, não os permitam pintar o sete.
      Meus alunos, têm paredes, listas, notas, horários e regras, só não podem ter almas, porque não os deixamos ter.
    ... Mas meus alunos são alados, eles sempre sabem voar, mesmo quando a nossa "educação" lhes cortam as asas.

                                                                                  Joíra Freitas

FAZ UM FAVOR POR TI


Faz um favor por ti agora... 
Faz a seguinte pergunta pra tua razão:"Eu vou melhorar?"
Faz a seguinte pergunta pra tua autoestima:" Eu posso melhorar?"
Faz a seguinte pergunta para o teu amor-próprio:"Eu mereço melhorar?"
Faz a seguinte pergunta para a tua felicidade: "Eu preciso melhorar?"
Agora olhe pra sua vida e responda pra você mesma:"EU VOU MELHORAR! EU POSSO MELHORAR, EU MEREÇO MELHORAR E EU PRECISO MELHORAR!"



A REPÚBLICA – PLATÃO (LIVRO VII)



RESUMO 

                                                                                                      (Joíra Freitas)
Na carta VII do livro “A República”, Platão através do diálogo entre Sócrates e Glauco, traz uma reflexão idealizadora a cerca de uma sociedade simbiótica e harmônica, na qual o filosofo tem a função político-pedagógica, onde usa o conhecimento e a dialética como meio para alcançar o supremo bem. Para elucidar isso Sócrates lança mão da alegoria do mito da caverna, pela qual explicita a teoria das idéias e das formas numa perspectiva dualista.
Sócrates na busca da sociedade perfeita, pensa fazer-se necessário aos seus governantes serem possuidores de um conhecimento puro e verdadeiro, sendo os filósofos os aptos para esta sublime tarefa. Ao ilustrar em que consiste o conhecimento pleno, apresenta o mito da caverna, que é dividido em três fundamentais partes: a primeira descrevendo a caracterização da imagem da caverna, metáfora da realidade sensível; a segunda, o processo de libertação do prisioneiro e a terceira parte, a dialética descendente, onde o prisioneiro retorna a caverna em sua missão filosófica.
Discorrendo sobre o mito da caverna nos é apresenta dois planos, com seus elementos próprios: a caverna e o dia. A caverna compõe-se de sombras das marionetes e o fogo, tendo como representação a realidade e o sol do real. O dia é metaforicamente o mundo inteligível, composto por sombras e reflexos, realidade e sol, ou seja, idéias propriamente dita e o bem, este se apresentando como principio de toda a perfeição, ou diga-se, a elevação da alma ao mundo das idéias, alcançadas pela visão do sol, que permite chegar a essência dos seres, constituindo isso na plenitude do conhecimento.
Um dos prisioneiros da caverna (que seria o filosofo) sente a necessidade de libertar-se, então sai da caverna libertando-se da falsa realidade que é imposta a todos os homens “comuns”, cujas correntes que aprisionam são os condicionamentos que faz visualizar as coisas parcialmente como à sombras que são ilusórias e distorcidas, fazendo com que desejem as únicas verdades que se conhecem. Este prisioneiro ao livrar-se das correntes, parte em busca das idéias para atingir o bem.
O filosofo narra então o processo de libertação do prisioneiro, caracterizando este fato como algo desafiador, inquietante e doloroso, como se esse algo o forçasse a levantar-se, como forças antagônicas, que o faz buscar algo alem de si mesmo. Nesse processo doloroso, faz-se necessário que o prisioneiro, gradativamente vá se adaptando o seu olhar para habituar-se a clarividência. A nova realidade se dá a partir desse vislumbramento gradativo como adaptação para a nova visão que ora se desponta, possibilitando agora dirigir-se a luz. Visualizando a principio as sombras e imagens, em seguida os objetos, os reflexos dos astros, ate conseguir vislumbrar o sol, que para Sócrates prefigura o grau Maximo da realidade, a essência do ser pleno, a própria idéia do bem.
Quando o prisioneiro agora liberto e com a vista adaptada para o vislumbre do real, atinge a visualização do sol em sua essência, passa então a possuir o saber, porque agora ver sem interferência a fonte primordial de toda a luz: a realidade, compreendendo assim a totalidade do ser, já que agora consegue ver o todo e não mais parcialmente como antes na caverna e no processo de libertação. Ao ver o sol na sua plenitude percebe agora todo o nexo causal, que tem agora o sol como a causa primeira. Tendo o prisioneiro assim, atingido esse enlevo de alma, preferiria pagar qualquer preço a ter que voltar para esse estágio de ignorância.
A alma não podendo contemplar a ideia do bem repentinamente, precisa de aptidão natural para o aprendizado e empenho para alcançar o conhecimento, passando da mera opinião ao intelecto, jamais voltaria ao senso comum, daí ocorre à superação dos filósofos genuínos a e sua superioridade intelectual para governar a cidade perfeita.
Na terceira parte do texto Sócrates, faz a descrição da chamada dialética descendente, ou a volta do prisioneiro à caverna, caracterizando com isso a missão político-pedagógica do filosofo, que ao atingir o saber, não contente em possuir apenas para si, sente a necessidade de retornar e elucidar aos seus companheiros a realidade recém descoberta, contrapondo aquele modo de vida na caverna, e motivá-los também a se desacorrentarem do mundo das ilusões. Esse retorno do prisioneiro pode implicar em morte e incompreensão por parte dos antigos companheiros de escuridão. Agora, no sentido oposto começa o processo de retorno a caverna, que requer cuidado a fim da sua missão ser concluída eficazmente, que representa a sua função política.
Na parte final do mito da caverna, Sócrates faz uma interpretação da mesma para Glauco, dando ênfase ao aspecto ético e político do saber filosófico. Brevemente discorre a caverna como representando a ignorância na qual se encontra o homem preso, sendo a escuridão o que limita o vislumbre da realidade. A educação é o fator pelo qual se espera conduzir o homem a direção da luz, sendo que todo processo educativo que evidencia as qualidades da alma, traz o aperfeiçoamento e a formação de um bom cidadão. Portanto a educação deve oferecer meios para posicionar corretamente a visão e não a de fazer obtê-la.
Portanto é colocado no texto, o tornar-se filosofo  como uma tarefa difícil, que exige por si só um desapego das coisas subjetivas ao olhar para o mundo inteligível. Só os filósofos podem orientar os que ainda permanecem na caverna, daí na sociedade perfeita caberia a eles o posto de dirigentes. Na visão de Sócrates, não poderia caber aos poetas o papel de constituinte da cidade, uma vez que está a passos da realidade, pois a obra poética nos apresenta apenas a aparência, sendo ilusória, uma vez que não imita o mundo imanente, apenas a cópia do sensível.
Ainda na administração da cidade Sócrates em seguida fala sobre o seu aprimoramento. Quanto aos guardiões esse aprimoramento deveria acontecer através da “ginástica para o corpo e música para a alma”, daí surge-se a necessidade de selecionar os conteúdos das letras das musicas. Quanto a poesia, deveria ser utilizada com fim educativo, desde que não distorça a realidade, uma vez que a elevação da alma ate a realidade é a verdadeira filosofia. O filosofo apresenta também a matemática, a geometria como elementos do inteligível, uma vez que existem como conceitos. Retoma posteriormente a capacidade dialética como princípio efetivo no processo da aprendizagem, uma vez que esse método é o caminho para seguros resultados destruindo as hipóteses.
Coloca dessa forma a dialética como a “cúpula das ciências”, acima de outra forma de saber, e que, só tem acesso a dialética pessoas de caráter firme e moderado, pois para alcançá-la é preciso aplicação contínua.
          Seguindo assim a analogia ver-conhecer, a discussão posterior far-se-á sobre as descobertas desse meio de conhecer, através dos olhos da alma. Sócrates e seus interlocutores voltam então a discorrer as questões da cidade como um todo, retomando os temas tratados a partir agora das confusões chegadas a partir desse diálogo.





Se as pessoas estão sempre indo e vindo, eu só queria alguém minimamente eterno em sua duração, que me fizesse parar de achar normal essa história de perder as pessoas pela vida. .

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

FÈDON - A imortalidade da Alma?


Platão em sua maturidade filosófica escreve o diálogo Fédon, no qual descreve os momentos finais da vida de Sócrates antes de sua execução, discutindo com seus discípulos a ligação entre corpo e alma. O livro é iniciado com o diálogo entre Fédon e Equécrate, que narra a Fédon como foram os últimos momentos da vida de Sócrates.
A função precípua deste diálogo é abordar a questão da imortalidade da alma. O grande cerne levantado nesta obra de Platão é: será que a alma é imortal?  Problema à volta do qual surgirão outros, mais ou menos pertinentes Assunto este proposto, devido ao próprio momento em que ocorre o dialogo frente a iminente morte do filosofo, e o fato dos discípulos de Sócrates tentarem a principio persuadirem-no a não tomar o veneno cicuta que ceifaria sua vida, ele então levanta inúmeros argumentos para levá-los ao entendimento de tal decisão.
O argumento Socrático se inicia, com o conceito da imortalidade da alma e o fato da mesma se desprender do corpo indo para um lugar melhor, e, por isso, os seus discípulos não deveriam privá-lo desse bem, uma vez que o filosofo deve aspirar pela morte, já que a alma vai de encontro a um “mundo” verdadeiramente puro, de encontro com as ideias e com o verdadeiro conhecimento, a eternidade, a perfeição e a harmonia, sendo assim, é ela, a morte, a melhor sorte que o filosofo deve esperar, uma vez que a partir dela será conduzido ao conhecimento do belo e das essências.
Para Sócrates, "A  Filosofia é o exercício de morrer e estar morto”, ou seja, a alma abstraindo-se o máximo do corpo, que é visto como um cárcere que priva-nos do verdadeiro conhecimento. A esperança socrática baseia-se no fato de ser o Hades um local justo, de repouso dos que conseguiram a purificação da alma, lá habitam os que praticaram boas ações e lá se comungará com os sábios e os deuses. Este argumento teve como contexto em responder as objeções de Cebes quanto à insensatez de estar-se feliz com a morte quebrando as nossas ligações com os deuses.
O filosofo então, discorre sobre a preexistência da alma em relação ao corpo, ficando impoluta após o mesmo se extinguir. Para defesa de seu argumento, Sócrates, lança mão do fato de todas as coisas nascerem do seu contrário, sendo assim os vivos nascem dos mortos, e necessariamente, os mortos dos vivos, também o fato do processo de devir terem dois sentidos, demonstrando, portanto a sobrevivência inquestionável da alma, levando a conclusiva que há um ciclo de nascimento, morte e renascimento, para isso fazendo-se necessário que a alma habite no alem, de onde regressará quantas vezes forem preciso para reencarnar, ate alcançar a purificação. Portanto as almas são a causa do devir; a essência precedendo a existência.
Outro de seus argumentos para provar a imortalidade da alma, é gnosiológico, quando para o filosofo “aprender é recordar”. Tendo a alma já convivido com o mundo das ideias, e lá contemplado as formas perfeitas e eternas existentes no mesmo, ao retornar em um corpo e habita-lo, teriam estas memórias apagadas, esquecendo-se das ideias perfeitas, embora a alma ainda almeje voltar para o mundo das ideias, sendo assim o conhecimento está interligado as lembranças e tem  então de captar no mundo sensível, as sombras das formas do mundo das ideias.
Dependendo do ciclo vivido pela alma, estas ao encarnarem recordam mais do que outras daquilo que contemplou no mundo inteligível, surgindo daí no diálogo a explanação do mito do rio do esquecimento, onde as almas ao passarem bebem muita ou pouca água segundo a sequiosidade de cada uma, determinando, portanto o grau de lembranças, que são reminiscências de tudo aquilo já vivido, e que está guardado no seu interior em estado latente, esperando para ser acessado novamente.
Assim, Fédon ao voltar seu olhar a essência do homem, numa teoria de eternidade e de importância da consciência e das ações virtuosas, nos mostra Sócrates aceitando a morte de maneira serena, tranquila e consciente; almejando libertar a alma do corpo, não temendo a morte, pois afinal, a alma do filósofo sabe, então, que "enquanto viver deve guiada pelo raciocínio e cingindo-se sempre a ele, acalmar as paixões e não afastar os olhos do que é verdadeiro, divino e superior à opinião, e que, depois da morte, há-de ir para o que tem afinidade e que lhe é semelhante, livre já dos males que atormentam o homem.

Joíra Freitas

segunda-feira, 28 de maio de 2012

QUEM AMA A CRISTO DIZ SIM A VIDA?



QUEM AMA A CRISTO DIZ SIM A VIDA?

(A Igreja e o Referendo de outubro de 2005)

                                                                                            *Joíra Freitas

            Falar sobre a participação cidadã da Igreja no mundo contemporâneo ainda é um tarefa árdua, primeiro por ser tal assunto imbuído de questões éticas e segundo, por ser algo novo no contexto Igreja-sociedade. Devemos então antes de analisar quaisquer questões de ética social, (ethos como forma de habitar), é preciso entender o que é cidadania e analisar numa perspectiva bíblica qual a função ou papel do cristão diante da polis.
            Ser cidadão (e ter cidadania) é participar dos interesses de seu país, de seu estado e de sua cidade. Exercer essa cidadania é ser uma pessoa de ações e pensamentos críticos e ativos, ou seja, a cidadania é o conjunto dos direitos políticos de que goza um indivíduo e que lhe permitem intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação do governo e na sua administração.
Ao criar o ser humano, Deus na sua infinita misericórdia, sabedoria e bondade, fê-los habitar em sociedade, vivendo num contexto social, onde a justiça e a misericórdia pudessem ser praticadas, “Assim na terra, como no céu”. Vivendo nesse mundo onde convivemos com outros entes, faz-se necessário que participemos dele com comprometimentos éticos e morais, afinal de contas em Mateus 5:14, é dito que "vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte" (Almeida Edição Contemporânea).
Ao examinarmos cidadania no contexto Igreja contemporânea, nascem algumas questões inquietantes, mas fundamentais para esboçarmos o perfil da Igreja cristã nos desafios do mundo atual. Entre estas questões encontram-se tais como: se a igreja realmente participa ativamente da vida pública, se as questões sociais são discutidas com consciência critica dentro dos muros da igreja, se os líderes estão verdadeiramente preparados para inserir seu povo no contexto de participação cidadã, se a igreja não confunde o medo de participar da vida da polis com o mandamento de “não amarmos o mundo e o que nele há”.
            Para analisarmos melhor a questão aqui proposta, examinemos, embora de forma breve, a igreja e sua postura diante do referendo do dia 23 de outubro 2005, onde o povo brasileiro foi consultado sobre a proibição do comércio de armas de fogo e munições no país, propondo a alteração do art. 35 do Estatuto do Desarmamento (Lei n° 10.826/2003) que tornava proibida a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional, salvo para as entidades previstas no art. 6° do Estatuto. Como isso causaria impacto sobre a sociedade brasileira, o povo deveria concordar ou não com ele. Os brasileiros rejeitaram a alteração na lei.
Para Maria Aparecida Rezende Mota, doutora em História social, em seu artigo “O referendo de outubro/2005: das conquistas plurais à derrota singular”:
“a campanha mobilizou igrejas, organizações da sociedade civil, polícias militares dos estados e a polícia federal, entre outras instituições, Segundo dados do Ministério da Justiça, ela resultou na entrega e destruição de 443.719 armas de fogo. (...)O pastor Ariovaldo Ramos foi outro depoente que considerou a experiência muito rica, especialmente para as igrejas evangélicas que sempre foram, segundo ele, um tanto ausentes, “nunca se envolviam em grandes campanhas, em questões de natureza política, achavam que a igreja tinha que se manter alheia a essa situação toda”. O fato de muitas igrejas terem participado ativamente, para ele, foi um grande passo, “uma tomada de posição, uma tomada de consciência””.
Ao lermos o artigo da doutora e as conquistas das ações de algumas igrejas frente ao plebiscito de 2005, ficamos animados ao percebermos que o povo cristão exerceu sua cidadania e disse sim a vida, mas logo a animação passa ao analisarmos melhor em que contexto tudo isso se deu e quão pouco foram às igrejas de fato envolvidas neste processo, e o que é ainda mais preocupante, percebemos o quanto a igreja está longe de mobilizar seus adeptos para exercer uma cidadania consciente.
Seria por demais simplista, comemorar a vitoria da “vida”, no Referendo como uma participação ativa da igreja em torno da questão, é óbvio que não podemos negar o quanto foi um passo de progresso, os cristãos, pelos menos alguns, terem se envolvidos em questões sociais, mas também não podemos ignorar alguns fatos que deveríamos rever e resignificar para servir como exemplo para futuras ações cidadãs participativas.
Pouco se viu a igreja, pelo menos no contexto Nordeste, discutir o assunto do desarmamento com seus adeptos, com um prévio esclarecimento de forma consciente, numa perspectiva filosófica, racional e acima de tudo bíblica, sem dogmatismos tradicionais religiosos. Não vimos o assunto sendo pensado, refletido, ponderado nos muros das igrejas, onde o cristão pudesse tomar sua própria decisão de forma coerente, não apenas porque o pastor (tido como líder espiritual e moral) disse para fazer. Na Grécia antiga dos grandes filósofos, eram considerados cidadãos aqueles que estivessem em condições de opinar sobre os rumos da sociedade, não longe disso na Bíblia já diz em Oseias 4:6 (NIV): “Meu povo é destruído por falta de conhecimento”.
A Igreja de uma maneira geral, tem aberto os olhos para as questões sociais e políticas como uma realidade para a instauração do Reino dos céus, que segundo o Senhor Jesus já era chegado, muito já se conquistou nesse sentido, mas falta antes de sairmos exercendo cidadania como um povo que tem respostas para as mazelas do mundo, fazê-lo de forma responsável e madura, discutindo o assunto com os cristãos, que alem de membros da mesma, são cidadãos, afinal Um homem sábio tem grande poder, e um homem de conhecimento aumenta a força. Para travar guerra você precisa de guia, e para vitória de muitos conselheiros”, (Prov. 24:5-6).




sexta-feira, 4 de maio de 2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

PORQUE USO BATOM VERMELHO?

Nunca entendi, porque as pessoas dão cores aos seus absurdos, a sua paz, a suas guerras, as suas mazelas. Nunca entendi porque as pessoas definem as cores entre boas e más, como se elas tivessem vida própria, personalidade, caráter ate. Nunca entendi essa inefável mania de descolorir ou colorir coisas, sentimentos, como se viver se resumisse num quadro de Monet.
Somos simbólicos eu sei, precisamos desses mitos também sei, necessitamos classificar as coisas, sistematizá-las, também sei, só não sei por que essa intragável “superioridade corística”. O azul é cor de menino, já dizia minha avó, menina, use cor de rosa que é a cor das mocinhas, dizia minha mãe... e eu quase acreditei que elas tinham razao, até me deparar com os novos tempos, seria então o verde-água cor dos homossexuais? Não sei talvez um tio moderno, ou um avô dessa nova geração possa elucidar melhor o fato. Diria a cor: “ser ou não ser, eis a questão”.
O preto é cor insubstituível das trevas, enegreceram o preto, radicalizaram a bela cor da noite que é pano de fundo para a lua dos enamorados. Quando o ambiente está carregado de “maus fluídos”, como dizem os espiritualizados, dizem que uma névoa preta enegreceu o local. Quando se mancha a reputação de alguém, dizem que “denegriu”, tornou-se negro a imagem do mesmo. Ah! Que fizeram do preto, da bela cor da noite, da tez da linda mulata filha de mamãe Kieza, da derme negra do Quilombo?! A noite é negra, para que repousemos das forças do dia, para que no sono revigoremos da lida, dos cansaços do sol.
A paranóia do inconsciente coletivo continua se: estou doente, estou amarelo, saudável corado, se estou com raiva fico verde, se tudo é calmo e limpo fica branco, se morro tem roxo no velório, se estou me sentindo vivo ponho laranja., se uso cores sou piruá, se não as uso sou discreta. Se uso preto sou roqueiro, se uso estampa pagodeiro. Se sou virgem caso de branco, se não sou mais... bom, aí é melhor que os demais sejam daltônicos....
E por falar em cores, me exacerba os politicamente corretos contra o vermelho-pecaminoso. Vermelho a cor do pecado, de pomba-gira, de perdição. Adoro batom vermelho, uso essa cor desde tenra idade quando eu me banhava e meu pai dizia: “coloca um batom menina, está com cara de doente”. Meu batom vermelho sempre incomodou quase todas as pessoas que me cercam. Uns dizem que o vermelho é pra chamar atenção, outros olham como se eu estivesse pronta a seduzir qualquer transeunte que passar. Muitos dizem que é a cor de Jezabel, mas poucos, muitos poucos me perguntaram de fato porque uso batom vermelho.
Uso batom vermelho porque nunca tive problemas ou traumas com cores, pelo contrário, amo as cores, as matizes, os musgos, as tintas, amo brincar de vida, de tons e de Jobins. Sou assim, infinitamente camaleoa, deslumbrada, brilhante. Minha alma é espalhafatosa, larga, esparramada pelos poros dos sentidos. Pecado é não amar, é se preocupar com a cor do batom do outro enquanto as pessoas próximas morrem por dentro por falta de um afeto, de um ombro amigo. Perdição é fingir, dissimular o que não se é, morrer de vontades por dentro, enquanto se tem medo do ridículo, é a pomba-gira da baixa auto-estima, da estagnação dançando nas almas desavisadas da solidão e ilusão de vida. Perdição na verdade, é estragar meu voto com os corruptos de Brasília.
Amo cores porque Deus é colorido. Tudo que ele fez está pigmentado de matiz de sua alma brilhante. Cada flor, cada estrela, cada amanhecer e anoitecer, cada cor de pele, cor de pássaros, árvores, rios, pedras, tudo tem a assinatura das cores de suas mãos. Sim, o meu Deus é colorido, é incontestável isso, basta olhar a tela que ele pintou chamado mundo, e vejo que a cor do sangue do seu Filho que foi derramado por amor a humanidade, era vermelho carmesim.
Sim, Deus é lindamente colorido!

Joíra Freitas

terça-feira, 1 de maio de 2012

A GENTE NÃO SABE


[...] "Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso por direito, e não sabe, não sabe, não sabe.!" [...]

Guimarães Rosa

AMA, PORQUE ISSO BASTA!



Reaja aos impulsos desse insignificante nada. Seja, enfim, a essência de todo bem que carregas dentro da sua bagagem de mão. Vista-se com o melhor do amor que tens aí e vem. Esquece tudo e ama, porque isso basta!"

(Erica Gaião)

UNIVERSIDADE: STF APROVA COTA PARA LOIRAS


"O Supremo Tribunal Federal decidiu incluir mais uma raça para o sistema de cotas. Agora mulheres de cabelo amarelo ou dourado terão seu espaço garantido nas universidades públicas de todo o país.
Ministros alegam que após cotas para negros, índios, estudantes da rede pública e deficientes mentais, seria injusto não incluir as portadoras de cabelo claro. “Excluir as loiras do sistema de cotas seria como dar um prato de comida para um morador de rua, mas negar o mesmo prato para uma criança de Serra Leoa.”, afirma o ministro das Raças, Mario Luther Rei.
Lembrando que o sistema de cotas é temporário, o STF espera que com a nova medida, loiras tenham mais oportunidades no mercado de trabalho, não precisando apelar para trabalhos como paquitas ou panicats, por exemplo".

DANÇANDO SEM MEDO


"Sozinha de ti, fico pensando como algumas pessoas, inevitavelmente, se destacam para nós. Não existe teoria para querermos dançar as suas coreografias belas. Não existe motivo para sentirmos o cheiro do sol em suas peles. Não existe explicação para andarmos descalços e embriagados. Por essas pessoas, nos sentimos movidas pelas belezas inéditas, belezas sem uniformes, belezas sem maquiagem. À ti, por me fazeres dançar sem medo de pisar em teus pés, dedico todo o cheiro do sol de hoje."

(Rita Germano)

ECUMENISMO, ESSE BICHO DE SETE CABEÇAS


Ecumenismo segundo a enciclopédia livre Wikipédia, É o processo de busca da unidade. O termo provém da palavra grega οκουμένη (oikouméne), designando "toda a terra habitada". Num sentido mais restrito, emprega-se o termo para os esforços em favor da unidade entre igrejas cristãs; num sentido lato, pode designar a busca da unidade entre as religiões.
Interessante como o povo grego antigo tinha a palavra ecumenismo com o sentido de “povo civilizado”, de cultura aberta, isso nos leva a reflexão de como temos mudado essa prerrogativa, ate mesmo com certo preconceito por parte das igrejas cristãs que repudiam com toda sua fé e conjunto de crenças, tais práticas. Estamos (in)voluindo? Em plena era da modernidade, estamos fechando a cultura e tornando-nos “bárbaros”, quando não podemos sequer comungar não as idéias propriamente ditas, mas sequer o diálogo com outros entes iguais. Sonho quase inalcançável do grande impulsionador destas missões, William Carey .
O grande medo dos inimigos do ecumenismo talvez seja a religião estatal, do tempo de Constantino em 313, onde quem não era Católico Apostólico Romano não era cristão. Talvez seja o de abrir mão de suas posições doutrinarias para juntar-se ao romanismo, ou o que é mais degradante, medo de serem vistos ou colocados no mesmo patamar de “igualdade com os demais”. O ecumenismo para estes irmãos são vistos como encontros sociais e espetáculos em aglomerações.
Segundo a CNBB, ED Vozes, 1997, SP, “a definição eclesiástica, mais abrangente, diz que é a aproximação, a cooperação, a busca fraterna de superação das divisões entre as diferentes igrejas cristãs”, partindo desse pressuposto, podemos ter o ecumenismo como uma proposta de tolerância, de busca pela paz, de evangelização de um mundo atualmente caótico.
Seria uma ignorância cultural e filosófica, não poder sentar-se à mesa de dialogo com outro ente que tem um pensamento diferente do meu, mesmo que algo nos separe. Neste mundo globalizado, faz-se necessário um diálogo inter-religioso, e isso tem caráter de urgência nesse século XXI, onde nações guerreiam contra nações, povo contra povo, irmão contra irmão, ser humano contra ser humano se matando, se ferindo, se aviltando  em nome de religião, disse Hans Kung em seu livro o Islao:
“Não haverá paz entre as nações sem a paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem o diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões se não se investigam os fundamentos das religiões.”
            Não podemos negar, ou fazer-nos cegos diante dos embates e conflitos contemporâneos onde a religião tem desempenhado um papel fatídico. É preciso parar de nos colocar como superiores e detentores da verdade absoluta enquanto a humanidade sofre em vários aspectos, inclusive em nome de Deus, enquanto possuímos a luz de Cristo para iluminar esses “anos de trevas” que nos assolam. Basta sentarmos a mesa do diálogo respeitando a alteridade do próximo, sem abrir mãos de princípios que cremos nos conduzir a salvação.
            Quando a igreja do Senhor entender que é madura o suficiente para escutar o outro e transformar o mundo com exemplo de amor e fraternidade, então saberíamos o que Jesus faria em nosso lugar, e sem medo algum continuaríamos com o brado da reforma: “Só Jesus, só a Bíblia, só a graça e só a fé”.

Joíra F.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A MULHER BONITA


"A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos e uma malícia que inquieta a todos quando sorri... As pessoas se questionam. O que é que essa mulher tem?! Ela tem algo. Pronome indefinido: algo. Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas."

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A RODA DO SER

Tudo vai. Tudo torna: eternamente gira a roda do ser.
Tudo morre, tudo refloresce: eternamente corre o ano do ser. Tudo se quebra, tudo se reajusta. Eternamente se constrói a mesma casa do ser. Tudo se separa: tudo se reencontra: o anel do ser permanece eternamente fiel a si mesmo. A cada instante começa o ser: à volta de cada 'aqui' gravita a esfera 'ali'. O outro está em toda parte. A senda da eternidade é curva."


(Nietzsche, Zaratustra).

OS AMORES ETERNOS NUNCA MORREM

É verdade que os amores eternos nunca morrem?
- É. Ou não seriam eternos.
- Mesmo que a pessoa esteja longe de você?
- Mesmo que a pessoa esteja longe de você ela estará mais perto do que você pensa.
- E como sabemos que aquele amor é eterno?
- Não sabemos. Até um dia.
- O dia em que ele vai embora?
- É. O dia em que ele vai embora mas nunca parte.

(Fábio Fabretti )

sábado, 14 de abril de 2012

O HOMEM, RIO POR NATUREZA

*Joíra Freitas

“ Paixão, só dela nasce o fôlego de um rumo”

(Lupe Cotrim)

Vida, substantivo feminino que indica ciclo, estado de atividade funcional da matéria orgânica, um estágio entre começo e fim, é existência que se expressa.

Essa expressividade humana do existir é como um rio que corre ao seu objetivo, segundo Quo Vadis, “o rio só atinge seus objetivos, porque aprendeu a contornar os obstáculos”, sendo o rio aqui prefigurado pela vida, o destino seria então os frutos do sonho dos homens, e os obstáculos as dificuldades pelas quais o homem certamente passará, ao ousar sonhar com o futuro. Como exemplo, temos uma lagoa que não tem obstáculos por não sonhar com o mar. Mas a vida humana não é uma lagoa, é rio, por isso precisa-se apaixonar por seus objetivos, para vivê-la de tal modo que os obstáculos não venham a ser maiores que os sonhos.

Nesse ciclo entre começo e fim o homem é rio por natureza, mesmo que não trace um objetivo pelo qual lutar, correr-se-á inevitavelmente para o mar. Sendo assim, uma vez que todos se movem em direção a um rumo, qual a força móvel eficaz que impulsiona um ente rumo ao ser? Todos, afinal se movem da mesma maneira?

Na vida humana, como citou Henrique de Lima: “o importante não é matar a sede, porque ela voltará sempre, o importante é possuir uma fonte”, ou seja, para se viver a vida e chegar ao objetivo desejado fazem-se necessário não apenas viver dia após dia ou sobreviver, é preciso apaixonar-se por uma causa que nos leve ao rumo, esta é a fonte, o motor móvel, o que nos dá fôlego para nadar... nadar... nadar... nos fazendo desviar dos percalços, em direção ao mar.

Paixão, palavra tão cantada e decantada pelos enamorados pela qual lutam frente às impossibilidades, é a mesma palavra que movem os gênios em suas descobertas, mesmo que por mais absurdas e desacreditadas, se concretizam com triunfo. Paixão em grego (pathos) conota em Aristóteles “o ser tomado por uma disposição, que o impulsiona a práxis (ação). O pathos é inerente ao ser humano, faz parte da emoção. Para Kierkgaard o pathos é a fusão entre o universal e o particular, entre a liberdade e o determinismo, é a discrepância entre o racional e o irracional.

Esse fôlego pelo qual nos impulsionam a práxis (ação) se dá por meio da paixão que nos levará ao rumo, entretanto, devemos lembrar sempre ser o pathos a influência de forças externas sobre o pensamento, e este como disse Carl Sagan “é a nossa bênção e a nossa maldição, faz de nós o que somos”.

No mais, fiquemos com Clarice Lispector: “não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo entendimento”.