Amor imortal morre! Era o título que li para os alunos aquela tarde de sábado. Naqueles dias, com aquele texto eu arrancava-lhes da alma a esperança do amor eterno. No texto aquele casal que tentara suicidio por amor impossivel, encontraram-se anos depois, esbarrando-se em uma esquina sem se reconhecerem depois de velhos, e tecendo palavras de malogros contra o outro que agora feio, careca e gorda era um transeunte indesejável.
Naquela época eu olhava dentro dos olhos do amor e acreditava mesmo, que pudesse ser eterno! O texto parecia estupidez de um autor amargo e desistido das virtudes da vida. Para mim naquela época, amor imortal não morria.Nao com os anos. Não com esbarroes nas esquinas por aí...
Mas hoje vejo, dias depois, que amor imortal morre todos os dias por aí, nas esquinas dos acontecimentos. Todo dia se morre um amor imortal nos esbarroes das esquinas!
Mata-se um amor quando está junto do outro já não é a coisa mais importante do mundo. Quando o silencio absurdo toma conta e um sente só entre dois. A toda hora, em toda esquina o amor morre aos esbarroes numa cama fria de motel, na porta de um fórum, no altar de uma igreja, num bar de luxo da cidade, nas vielas abarrotadas de gente e drogas.
Todo dia mata-se um amor com palavras ásperas, com a frieza da indiferença, com a falta dos gestos singelos. Mata-se o amor sem um afago no cabelo, sem um olhar sincero, mata-se o amor quando se atrasa na chegada, ate mesmo quando não se importa quando se chega.
Toda hora o amor morre nas mãos implacáveis de um controle remoto de TV, diante da face neutra da internet. O amor morre, tombado diante de uma tela, num clicar de dedos no computador. Mata-se o amor lentamente, desenvexadamente quando se estende o braço na cama larga e sente o vazio do outro corpo que não veio dormir. O amor morre nas noites solitárias, onde um dorme e o outro fica.
Mata-se o amor quando um sai para o trabalho e o outro afaga seus cansaços da noite gasta á toa. Mata-se um amor por coisas tão tolas! O amor morre na boca de cada palavra, de cada xingamento. Mata-se o amor no primeiro tapa, no primeiro descaso, nos sopapos e desrespeitos. O amor morre quando um manda e outro cala, quando um dita regra e não as cumpre para si mesmo. Mata-se um amor quando os absurdos das coisas foras sufocam a beleza do que está dentro. Mata-se o amor quando se deixa morrer as coisas simples e a pureza peculiar ao amor.
Mata-se um amor de tantas maneiras e de todas as formas, o tempo todo, em todas as esquinas da vida aos esbarroes, com um sujeito ou sujeita que você jurava que conhecia tão bem.
Todo dia morre-se lentamente um grande amor imortal, aos esbarroes, nas esquinas da vida, por aí...
Joíra F.

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